PELADO NO PARQUE OU NO FACEBOOK?

por DENIS VON BRASCHE | 19 agosto 2010

É pauta da moda falar o quanto todo mundo tá se superexpondo na internet e os perigos que isso pode trazer (vide essas matérias do UOL, da Folha e essa coluna aqui). O que eu acho engraçado é que parece que as pessoas esquecem que, a priori, a escolha foi delas em entrar nas redes sociais e foram elas mesmas que disponibilizaram (ou autorizaram) todo aquele conteúdo sobre si. Fora que essas reportagens sempre enxergam isso somente pelo aspecto negativo.

Por isso resolvi retomar um dos pontos que citei na minha última coluna (aqui), sobre a diferença da relação entre brasileiros e alemães com as mídias sociais. Logo que eu mandei o texto pra um grupo de amigos, um deles me perguntou se eu achava que o fato deles não se exporem tanto no Facebook tinha a ver com eles serem mais fechados na vida real. Eu respondi que sim, que o jeito que eles lidam com estranhos na rua é diferente e isso se reflete na internet – afinal, na rede você tá se expondo para um monte de estranhos. Mas a questão aqui vai muito mais a fundo do que apenas o jeito de ser.

Os alemães não vêem problema nenhum em ficar pelados no parque ou no lago para tomar sol, por exemplo. E é justamente a isso que Jeff Jarvis chama de “O Paradoxo Alemão”, naquele vídeo que eu indiquei na última coluna. Por um lado, acho que concordo e gosto disso. O que eles não querem expôr é justamente o que mais importa. Pipi todo mundo tem e não define ninguém. Agora, quem é você de verdade, o que você faz, do que gosta, o que pensa, onde vai, com quem anda, quem são seus amigos é mais complicado. Revelam muito mais sobre você do que suas “partes íntimas”.

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Eu estava conversando sobre isso com uma família alemã, que tem me ajudado aqui, e a mãe, uma senhoura já com seus 60 anos, me disse que quando você tira a roupa num parque, você sabe quem vai te ver pelado: são aquelas pessoas que estão ali no gramado também, talvez um morador do prédio vizinho, no máximo alguém passando por lá a pé, de longe; mas que, na internet, você não tem a menor ideia de até onde e a quem suas coisas vão chegar. Minha professora de alemão, 28 anos, disse que quando você tá ali desnudo, ninguém tá vendo seu nome, sua profissão, onde você mora. E isso faz todo o sentido com o que Jarvis diz na palestra, de que, na verdade, o problema nem é tanto a privacidade, mas sim o controle das informações, dos seus dados. Os alemães querem saber o que acontecem com eles, pra onde vão, quem usa.

E eu acho que essa falta de controle tem levado os brasileiros a desenvolver, além das clássicas pessoa pública e pessoa privada, a pessoa web. Mais do que isso, estão fazendo branding, criando marcas de si mesmos, com todas as suas redes sociais interligadas, pra que todos saibam que aquele @fulano do Twitter é o mesmo do Facebook, Last.fm etc. Fazem questão de expor certas coisas sobre si mesmos, pra criar e passar uma determinada imagem: cool, hiperligado, geek, engraçadinho, viciado em doce, fofa, pinguço, futeboleiro, viajante…

É justamente a alternativa oposta ao anonimato, que a Bia descreveu muito bem nesse texto aqui, mas que é tão forte quanto. Você estabelece assim um padrão e as pessoas já sabem o que esperar de você, dando uma segurança para a sua persona virtual… que fica mais próxima do seu “eu” real.

Eu encaro de forma positiva as pessoas exporem evidências queima-filme de si mesmas. Acho uma ótima forma de contribuir com a diminuição da hipocrisia alheia, afinal, nós vamos ficar conectados pra sempre! Vai chegar a um ponto em que todo mundo vai ter algo tosco sobre si na internet, vai ser normal, corriqueiro e isso acaba por nivelar todo mundo.

Acredito mesmo que os alemães podem se beneficiar se abrindo um pouco mais. Mas também acho bom guardarmos um pouco da gente pra que só as pessoas mais próximas, na vida real, saibam. Aquela faceta que só seus melhores amigos conhecem. Aquele detalhe que se torna uma cumplicidade entre você e sua/seu namorada/mulher/parceiro/marido. Nesse sentido, acho que os brasileiros poderiam ser um pouco menos “expostos no Facebook” e um pouco mais “pelados no parque”. E você, o que acha?


PS: Obrigado ao @robertowolvie, Veríssimo, Dileo, Laura Belinky, Sherlon, @ddonato e todos que colaboraram nessa salada de ideias! :)

LOG OUT, SHUT DOWN, GO OUT! (ou Pequenas Abstrações sobre a Síndrome da Hiperconectividade)

por DENIS VON BRASCHE | 26 julho 2010

Nossa, faz muito tempo. Que vergonha. Mas eu vou explicar:

Lembram dessa campanha da Sony pra lançar o Vaio W, com a Associação dos Viciados em Mídia Social (esse vídeo aí em cima)? Pois é, eu quase precisei de uma, de verdade – not!

Eu mudei pra Alemanha faz relativamente pouco tempo (vou completar 5 meses aqui) e faz só um mês que as coisas começaram a se acertar. Passei por umas fases bem difíceis, tive de sair do apartamento em que estava morando sem saber pra onde ir, entre outras coisas mais. E, nesse período de muitas indefinições, longe de tudo e de todos, acabei desenvolvendo uma certa necessidade de receber feedback dos meus amigos no Facebook e no Twitter.

Eu precisava que as pessoas me respondessem, curtissem ou comentassem meus posts. E isso chegou até um ponto em que eu resolvi, por livre e espontânea maluquice, me desligar por um tempo das redes sociais. Precisava me focar em resolver minha vida aqui, pois do jeito que estava, não estava vivendo direito nem lá, nem cá. E eu consegui ficar 21 dias sem publicar nada (e agora batem palmas pelo desabafo na reunião de Viciados Anônimos!).

O engraçado é que isso teve tudo a ver com o texto que eu estava escrevendo antes pra essa coluna – tenho dois arquivos começados, um de maio, outro de junho. Neles, eu falava das diferenças entre a relação dos alemães com internet e mídias sociais e a dos brasileiros. A sensação que eu tenho é que as pessoas aqui na Alemanha não são tão hiperultramega conectadas como nós… e nem querem ser.

Já fui chamado de doido aqui por pegar o celular toda hora pra fazer check-in no Foursquare cada vez que mudava de bar na noite. E eu acho que a pessoa tinha razão, não? Um amigo brasileiro tuitou outro dia que a primeira coisa que ele faz depois de ler os emails e tweets do dia é levantar da cama. Sabe o que é pior? Eu faço o mesmo.

Será que realmente precisamos de tudo isso? Acho que talvez, ao tuitarmos que estamos no bar tomando uma cerveja com a galera, por exemplo, estamos deixando de aproveitar um pouco a cerveja com a galera.

Muitos alemães nem tem conta no Facebook. E, quando tem, não ficam o dia inteiro escrevendo no mural, postando mil fotos e links. Eu estou lendo um livro muito bom do Ignácio de Loyola Brandão, chamado “O Verde Violentou o Muro”, em que ele conta suas experiências em Berlim antes e depois da queda do Muro.

Em um determinado trecho, em que ele conta que as pessoas do lado ocidental da cidade se sentiam incomodadas com a vigilância dos guardas orientais, ele faz uma constação que, em outro contexto, faz todo o sentido mais de 20 anos depois: “Nada pior para um alemão do que invasão de privacidade”. (Sobre isso, vale a pena ver essa palestra do Jeff Jarvis falando sobre o Paradoxo Alemão – Penis, Público, Privacidade)

Bom, mas eu estou de volta. Continuo super exposto na internet, tuitando e postando no Facebook, mas agora consigo controlar aquela ansiedade de esperar respostas dos amigos… mas, claro, se você quiser deixar um comentário aí embaixo dizendo o que achou dessa coluna, vou ficar feliz. :)

PS 1: Saiu uma matéria no Link, do Estadão, sobre mulheres viciadas em Facebook!
PS 2: Imagina se eu decido fazer igual esse cara aqui?

QWERTZ

por DENIS VON BRASCHE | 7 maio 2010

Alguma coisa lhes parece estranha na imagem abaixo?

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Pois é! Os teclados de computador aqui na Alemanha não são QWERTY, mas sim QWERTZ.

O Y e o Z são trocados! Toda vey que eu tenho que escrever alguma coisa aqui, eu arranco meus cabelos e me pergunto, “Por que, bom amigo Inibié, por que fiyeram isso?”. Tá bom, é claro que tem toda a explicação linguística da coisa, que eles usam muito mais o Z do que o Y no idioma deles, que fay mais sentido e é mais fácil pra um alemão ser assim. Mas pô, fala se isso não dá um tilt na sua cabeça, você que ficou treinando a sua vida inteira e aprendeu a digitar rápido (uhul!) com o Y lá em cima?

PS: Um pote de Nutella pra quem achar o @ nesse layout.

Aí vocês vão ver a confusão que é usar esse teclado. Isso porque eu não vou nem falar da acentuação…

PS2: Em breve uma coluna “de verdade” sobre o apego que as pessoas tem com suas redes sociais tradicionais – ou como cada país tem o orkut que merece.

WAS GIBT’S NEUES?*

por DENIS VON BRASCHE | 14 abril 2010

Um pouco depois que decidi me mudar pra Berlim, recebi uma matéria com um ranking das melhores cidades do mundo para morar em 2010, segundo os critérios do site Hub Culture. São Paulo, por incrível que pareça, estava em primeiro lugar e a capital alemã vinha logo na sequência. Eu estava indo da melhor para a segunda colocada, nada mal! :)

Mas, o que me chamou a atenção e me deixou mais animado ainda com a viagem, foi o trecho que diz que Berlim está se tornando cada vez mais a sede para diversas startups de web 2.0. Foi aí que eu comecei a reparar que muitos dos aplicativos que eu usava no meu celular haviam sido desenvolvidos na Alemanha, como Gravity e Twittix, ambos clientes de Twitter.

O curioso é que os alemães nem usam tanto a rede de microblogging!  Eles ocupam a quinta posição em número de usuários no Twitter, contribuindo com apenas 1,8% do total de posts. Além disso, é apenas o 13° país em perfis no Facebook (a maioria está em outra rede daqui, chamada Wer Kennt Wen) e não conversam por MSN, mas sim ICQ (ele ainda existe!).**

Ou seja, eles estão criando programas baseados em redes sociais, mas não usam as mais populares. Espero que venha então muita coisa inovadora por aí! Vamos ver se eu consigo descobrir o que eles estão fazendo. E também o que estão falando, que por enquanto está meio difícil… ;-)

* Tradução em alemão da famosa pergunta do Twitter – What’s happening? (O que tá pegando?)

** Se quiser saber mais sobre as estatísticas de uso dessas redes, acesse: Twitter e Facebook.