Duas histórias de vítimas do pornô de vingança e seus esforços descomunais para fazer justiça

por Manu Barem | 18 novembro 2013

revengeheader

Na noite de ontem, o Fantástico levou ao ar uma reportagem sobre Júlia Rebeca, uma adolescente do Piauí que cometeu suicídio depois de ter um vídeo de sexo vazado pelo Whatsapp. Ela foi encontrada morta em seu quarto, enrolada no fio da própria chapinha e a polícia ainda investiga as razões do vazamento de suas imagens na internet. A reportagem também mostrou outros casos de vítimas do “caiu na net”, como o de Fran, a goiana que teve sua vida arrasada pelo ex – mais um dos “pornôs de vingança” – e que a gente já mostrou aqui.

Hoje, outra história parecida aos poucos vira assunto nas redes sociais – o de Thamiris Sato, uma estudante de Letras da USP de 21 anos que se sensibilizou com a reportagem e resolveu contar para todo mundo (com prints e tudo) que está, neste exato momento, sofrendo com o pornô de vingança.

Thamiris (à esquerda, na foto do destaque) contou em seu próprio Facebook (que até a publicação deste post já tem cerca de 1.500 compartilhamentos) que seu ex não só espalhou pela internet fotos onde ela aparece nua, como fez inúmeras ameaças à sua integridade física. Incluindo enviar mensagens deste tipo:

ameaca

Assim que começou a receber estas ameaças, Thamiris fez um B.O. na Delegacia da Mulher e a partir daí viu o boom das suas fotos nuas acontecer no Facebook. Seu ex trabalhou duro na divulgação online, criando diversos perfis fakes e hackeando o email de Thamiris para conseguir spamear melhor. Ela chegou a acionar a família do rapaz, que o defendeu e ainda botou a culpa nela.

Ao G1, Thamiris disse “pensei muito na minha família para não me matar” e ainda que iniciou o processo de trancamento do seu curso na USP porque não tem “mais condições psicológicas para estudar”, além do receio do ex continuar com a perseguição e as ameaças na faculdade.

Em uma conversa comigo pelo facechat, Thamiris diz que fez isso por ela e por outras mulheres e que não imaginou que seu “desabafo chegasse tão longe”. No momento, diversas garotas a procuram para falar que já passaram por isso também, além de conversar sobre relacionamentos conturbados e até casos de estupro.

O estrago x a força para combatê-lo

As fotos de Thamires foram divulgadas até em grupos do Facebook criados para compartilhar pornografias e ela começou a receber mensagens privadas com conteúdo que vai desde o apoio até cantadas. Algo parecido aconteceu com Holly Jacobs, uma psicóloga americana que também contou recentementetoda a sua saga para combater a ruína causada por um ex. O cara mandou suas fotos e vídeos íntimos para mais de 300 sites e quase acabou com a sua vida profissional. 

Ela fez um esforço lunático e quase conseguiu tirar manualmente os links pornográficos ligados ao seu nome do topo dos resultados do Google. Vendo que não era possível fazê-lo por completo, ela resolveu trocar de identidade.

Mesmo com tanto contratempo, Holly reuniu forças para pesquisar sobre leis que punem crimes de pornô de vingança, contactar gente que estudava o assunto e aos poucos se viu no meio da elaboração da lei da Califórnia que pune este tipo de crime (nos EUA, apenas dois estados identificam um agressor no crime do pornô de vingança).

revenge

De vítima, Holly passou a ativista. Fundou o EndRevengePorn.com, que combate o pornô de vingança com diversas informações sobre que atitudes tomar, e o Cyber Civil Rights Initiative (CCRI), que combate todo o tipo de agressão online.

É claro que os casos da Thamiris e da Holly são raros – não é todo mundo que tem essa coragem e topa se expor ainda mais, mesmo estando com a vida em frangalhos e tendo que lidar com os procedimentos legais para punir o agressor. A apresentação destes exemplos aqui também não deve ser entendida como uma lição de moral sobre as demais histórias que tiveram um fim trágico, como a da Júlia Rebeca, ou para outras mulheres que estão sofrendo em silêncio.

O que precisamos visualizar é o esforço descomunal que uma vítima deste crime tem que ter só para que o dedo que aponta o culpado seja voltado para o lado certo. Como se não bastasse toda a repercussão avassaladora e traumática que o pornô de vingança tem sobre a vida de uma mulher.

No mais, enquanto Thamiris e Holly têm comportamentos corajosos e exemplares como estes, milhares de homens e mulheres (!!!), ainda estão bradando nas redes sociais que a culpa é de quem se deixou filmar.

Quem escreveu:

Manu Barem / @manubarem

é editora do youPIX e fanha (quando a rinite ataca).
veja + posts do autor

Comentários: